"É ASSIM QUE CONTRIBUIMOS PARA OBESIDADE!"
domingo, 23 de agosto de 2009
Podemos dividir o problema das crianças com excesso de peso e as com obesidade instalada (índice de massa corporal elevado) em várias fases temporais. Na fase 1, nos anos 70, raramente tínhamos este problema nos consultórios e em hospitais infantis no Brasil e no exterior. Os casos era raros e quando surgiam eram associados a outros distúrbios psiquiátricos, hormonais ou genéticos. A partir dos anos 90 o excesso de peso passou a ocorrer de modo progressivo em crianças de todos os níveis sócio-econômicos, em vários grupos étnicos e em todos os estados brasileiros.
O Nordeste, por exemplo, sempre considerado como região de grande número de desnutridos, ao final do século 20, já apresentava mais crianças com sobrepeso e obesidade do que aquelas com desnutrição. Ampla oferta de comida, abundante e barata colocou nas mesas das classes D e E, uma quantidade de energia calórica bem maior nos últimos anos.
A fome oculta de muitas gerações, o baixo peso ao nascer, fruto de eventual desnutrição protéico-calórica durante a gestação, podem ter alterado o “fomestato” - ou o regulador da fome e da saciedade. Este tipo de fenômeno foi também observado nos EUA, onde as minorias hispânicas e os afro-descendentes têm um enorme contingente de crianças obesas.
A Fase 2 da epidemia de obesidade infantil
Estamos, agora, entrando na fase 2, em que se verifica o aparecimento, junto com a obesidade, de alguns problemas sérios de saúde. A literatura médica, com grande freqüência, vem alertando para o fato de que o Diabetes tipo 2 se eleva rapidamente entre os adolescentes. Os números indicam que nas últimas décadas a incidência do diabetes em adolescentes aumentou 10 vezes em hispânicos e afro-descendentes nos EUA. Muitas (1 em cada 3) das crianças com sobrepeso e obesidade já apresentavam o fígado cheio de gordura (esteatose hepática), chegando a nível de alterações da função do fígado.
Problemas ortopédicos (joelhos, coluna vertebral) e de alterações do sono (ronco, apnéia) também são freqüentes. Mas muito importante é mencionar o aspecto psico-social: as crianças obesas tendem a se isolar socialmente, com conseqüente compensação para uma forma compulsiva de comer (sempre muito depressa, com sofreguidão), sintomas de ansiedade presentes e, mais raramente, alguma depressão. Estudos pedagógicos indicam que, quando chega a idade adulta, esses jovens levam desvantagem nos exames de admissão às universidades. Aparentemente não são os mais brilhantes da turma e, muitos, desistem de cursos superiores.
A epidemia pode progredir para a fase 3
Muitos anos deverão se passar até que a obesidade chegue à fase 3 desta epidemia do século XXI. Neste estágio, as complicações médicas podem levar a sérias conseqüências para a saúde da criança e do adolescente. Existem dados médicos e estatísticos bem elaborados indicando que a criança obesa tem nítida propensão para futura doença coronariana. De fato a previsão é que o número de alterações sérias das coronárias deve-se elevar entre 5 e 16% entre adultos jovens obesos.
Os jornais noticiaram recentemente dados sobre jovens adultos entre 20 e 30 anos. Pela primeira vez, esta faixa etária da população tem apresentado episódio coronários — 12% dos atendidos em emergência, algo pouco provável há 30 anos. É verdade que o estresse contínuo, a pressão social, horas longas de trabalho e falta de atividade física são componentes importantes destas estatísticas. Impressionante é o fato de mulheres adultas, na faixa de 40 a 50 anos, obesas desde a adolescência apresentarem risco cardíaco sério — três vezes mais freqüente que as de peso normal. Portanto pode-se afirmar que a obesidade infanto-juvenil é uma “bomba” de efeito retardado.
O que acontecerá na fase 4?
Desde que não haja uma efetiva e eficiente intervenção médica, social e global, a fase 4 nos conduzirá à uma aceleração da epidemia de obesidade infanto-juvenil. A epidemia reverterá sobre gerações futuras e seria um fenômeno em escala crescente com mães obesas gerando filhos com propensão à obesidade.
As soluções estão à vista e várias já foram propostas e muitas incluídas por vários países e populações. Depende de uma estratégia a ser desenvolvida pelos órgãos públicos de pela mídia. Temos que aprender mais sobre a regulação do peso corporal, como controlá-lo, reduzir a fome e induzir saciedade de forma segura e eficiente, como gastar mais energia acumulada, como diminuir a poupança natural do corpo, que insiste em guardar gordura.
Dieta saudável e muito exercício físico são essenciais. O problema é que é mais fácil falar do que executar. Tempo gasto em TV e jogos eletrônicos devem ser limitados, com alternativa para exercícios aeróbicos. Legislação sobre publicidade de fast-food, produtos industrializados de toda sorte tem de ser instituída. O que se come nas escolas deve ser supervisionado e orientado para um lado mais saudável. Pais e mestres poderiam cooperar nesta área, preventivamente. Com o esforço de todos poderemos controlar a obesidade infanto-juvenil e suas conseqüências.
fonte: Revista veja
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